Archive for Maio, 2010

Foi um sonho que não se realizou! Talvez um dia, quem sabe?

Maio 11, 2010

Em Outubro de 2006 tivemos um sonho, certas que ele se ia concretizar, eu escrivã de serviço, produzi o texto que se segue como sensibilização da ESCOLA para o sonho – Criar um Museu Escolar. Ficámos pelo sonho, mas não o esqueçemos, lembraste Anabela?

“Nós somos todos constituídos de bocados, de extractos de História, de literatura, de direito internacional (…). E se vos perguntarem o que fazemos, podeis responder: “Recordamo-nos”

Ray Bradbury, Farhrenheit 451

 Fixa em território conhecido por toda a comunidade, pulsando a um ritmo único, é a inconfundível ESCOLA. Muitos têm afirmado que está fechada ao Mundo, sendo, curiosamente, o seu destino e vocação o Mundo.

 O Mundo tem sido, ao longo dos tempos, tema único e essencial. O seu conhecimento, as suas representações, as conquistas nele realizadas, bem como os seus fracassos são o coração da Escola.

 Não podendo conter dentro das suas paredes a vastidão do Mundo, a Escola foi (é) rica na sua recriação, na sua representação imagética, na reprodução de objectos e utensilagem resultado da intensa vocação de mostrar, de dar a ver, de ensinar a olhar, que sempre orientou a Escola.

O primado da visualizção ofereceu ao aluno o contacto não com o Mundo, mas com a sua representação (e assim continua a proceder recorrendo às novas tecnologias da comunicação e da informação).

 A Escola propiciou aos alunos a manipulação, a observação, o estudo do mundo onde decorria a sua vida recorrendo ao que se denomina material didáctico.

 É esse material que urge preservar, conservar, dar vida. Os mapas, as ilustrações, as amostras geológicas, os espécimes biológicos embalsamados, moedas, maquetas, toda a panóplia de objectos laboratoriais são espólio das escolas, fazem parte da memória colectiva dos que a frequentaram. São a memória do presente e dar-lhes vida, fará deles a memória do futuro.

Dar-lhe vida é deixá-los caminhar pelas auto-estradas da informação ombreando a sua materialidade com a realidade virtual.

O seu destino é o Museu, o seu local de segurança, de conservação, mas também o local de onde parte para a vida. Daí sairão para continuar a cumprir o destino da Escola que os concebeu – a abertura ao Mundo.

São objectos que, apesar de simples representações, têm uma matriz que está viva, que está para lá das portas da Escola. Essa matriz é o Mundo que afinal permanece igual a si próprio como poderemos verificar no Museu da Escola. (13 de Outubro de 2006)

A República e os Direitos da Mulher

Maio 7, 2010

 

Debaixo de grande polémica, Carolina Beatriz Ângelo, médica, viúva e “chefe de família”, ousou votar nas primeiras eleições republicanas a 28 de Maio de 1911 aproveitando as indefinições existentes no enunciado da Lei.

 

Na sequência da controvérsia, é aprovada pelo senado em 1913 a Lei Eleitoral da República (nº 3 de 3 de Julho) onde pela primeira vez num texto legislativo se determina expressamente o sexo dos cidadãos eleitores: “são eleitores dos cargos políticos e administrativos todos os cidadãos portugueses do sexo masculino, maiores de 21 anos, ou que completem essa idade até ao termo das operações de recenseamento, que estejam no gozo dos seus direitos civis e políticos, saibam ler e escrever português e residam no território da República Portuguesa”.

O direito de voto às mulheres foi concedido (precariamente) pela primeira vez em Portugal, em 1931 sob o patrocínio legislativo do Estado Novo (lei nº 19:694 de 5 de Maio), restringido àquelas com o curso dos Liceus. Em 1934 nas eleições legislativas foram eleitas pela primeira vez mulheres para a assembleia nacional: Domitília Hormizinda Miranda de Carvalho, Maria dos Santos Guardiola e Maria Cândida Pereira.

A cláusula de masculinidade

O “incidente” Carolina Ângelo mostrou aos dirigentes da república a necessidade de clarificar uma coisa que até aí lhes parecera evidente: o carácter masculino da política portuguesa. Não lhes ocorrera que fosse preciso explicar às mulheres o lugar delas, mas uma vez que se levantava a questão, era urgente esclarecê-la.
Desde a sessão inaugural da Assembleia Constituinte, em 19 de Junho de 1911, ficou expressa a cláusula de masculinidade para a entrada no parlamento republicano, e toda a legislação subsequente veio confirmar que as mulheres estavam excluídas do processo político.

Os nostálgicos da primeira república souberam tirar proveito da distracção dos seus heróis. Tal como Carolina Ângelo aproveitou o lapso dos legisladores para depositar o seu voto na urna, também alguns historiadores republicanos aproveitaram este caso para sugerir que a república concedera, inicialmente, a igualdade de direitos políticos às mulheres, e só em 1913 retrocedera nas suas generosas intenções. Na “História da República”, de Raúl Rego, pode ler-se que a legislação de 1913 retirou o voto aos analfabetos e às mulheres, significando isto que “a República, na igualdade dos sexos, voltava sobre si mesma e à discriminação da mulher, anjo do lar”.

João Távora/Carlos Bobone

http://www.centenariodarepublica.org/centenario/2008/04/17/a-republica-e-os-direitos-da-mulher/