Archive for Junho, 2010

CARTA PARA JOSEFA, MINHA AVÓ

Junho 26, 2010

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha.

Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.

Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, umas coisas que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.

Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.

É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.

 José Saramago

Este foi um dos textos de Saramago que me tocaram especialmente, por isso partilho-o com todos os que aqui vierem.

MORRESTE-NOS!

Junho 20, 2010

José Saramago passou pela Escola Secundária de D. Duarte, falou para e com os alunos. Pediu autorização a uma professora para tomar nota do seu nome, talvez um dia o utilizasse numa personagem dum romance – Verbuges Celeste.

Foi mais uma das figuras que escreveram o seu nome na História e que honraram com a sua presença a nossa Escola.

As frases que se seguem e que são da autoria de José Saramago são um pequeno contributo à sua memória e um pretexto para reflectirmos e pensarmos a nossa vida.

Obrigada, José Saramago!

“Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais.”

“Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro.”

“Não tenhamos pressa,
mas não percamos tempo.”

“O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas.”

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

“Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.”

“O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio.”

“Cada dia traz sua alegria e sua pena, e também sua lição proveitosa”

“Sempre chega a hora em que descobrimos que sabíamos muito mais do que antes julgávamos.”

“Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória.”

“Mesmo que a rota da minha vida me conduza a uma estrela, nem por isso fui dispensado de percorrer os caminhos do mundo.”

“O talento ou acaso não escolhem, para manifestar-se, nem dias nem lugares.”

“Costuma-se dizer que as paredes têm ouvidos, imagine-se o tamanho que terão as orelhas das estrelas.”

“A única maneira de liquidar o dragão é cortar-lhe a cabeça, aparar-lhe as unhas não serve de nada.”

“Das habilidades que o mundo sabe, essa ainda é a que faz melhor: Dar voltas. “

“Há esperanças que é loucura ter. Pois eu digo-te que se não fossem essas já eu teria desistido da vida.”

José Saramago

Nos 400 anos da morte de Caravaggio

Junho 17, 2010

 Michelangelo Merisi nasceu em 29 de Setembro de na aldeia Caravaggio, nome que veio a adoptar anos mais tarde.

Aos doze anos iniciou a sua aprendizagem artística, tal como muitos outros pintores da sua época, com um modesto pintor.

Com a idade de quinze anos, e depois de ter fugido para Roma, inicia um percurso instável, mudando continuamente de mestre.

 Esta instabilidade irá acompanhá-lo ao longo da vida, tal como a frontalidade com que abordou temas religiosos, enfrentando a poderosa Igreja Católica. A originalidade da sua obra, sempre provocatória para a época, desde cedo lhe granjeou amigos e muitos inimigos. Em vida foi considerado perigoso e fascinante.

 Senhor de um espírito turbulento viveu a sua vida entre duelos, discussões, processos judiciais, e pensa-se que terá assassinado o nobre Tommasoni.

 Caravaggio frequentou ambientes de levado e refinado nível cultural, mas era mais assíduo nas tabernas e tascas Romanas, sempre disposto a envolver-se em brigas, duelos e a perturbar a ordem pública.

 Figura exótica vestia roupas extravagantes, usava chapéus negros de abas largas, espada sempre à cintura, transportando, ao colo, um pequeno cão.

 A vida de boémia, a companhia de rufias,  pícaros e as dívidas acumuladas levaram – no à miséria.

Foi graças a este seu carácter brigão que acabou por morrer aos 39 anos numa praia deserta esvaído em sangue a 18 de Julho de 1610.

 Ficou a sua obra genial. Única no seu tempo. Trabalhando a luz e a sombra com mestria, retratando o povo anónimo das ruas de Roma: vendedores ambulantes, músicos, ciganos, prostitutas, marinheiros.

Estes eram os modelos nas suas obras de carácter religioso.

 O realismo da sua obra foi marcante nos movimentos artísticos que se seguiram.

 “Não sou um pintor valentão, como me chamam, mas sim um pintor valente, isto é, que sabe pintar bem e imitar bem as coisas naturais.” Caravaggio referindo-se a si próprio.

UMA BREVE ARAGEM CONTÍNUA E INVISÍVEL

Junho 15, 2010

A Escola Secundária de D. Duarte continua a ser uma caixinha de surpresas. Tenho tido o privilégio de descobrir que os alunos que frequentaram a DD, aqui ganharam “raízes para se fixar e asas para voar”! E que alto que eles voam!

Deixo aqui mais um exemplo que justifica que a arte andou sempre à solta na Escola. E se observarmos com atenção, abrindo bem os olhos e deixando-nos embalar pela breve aragem que continuamente corre dentro e fora das suas paredes, teremos oportunidade de a ver passar, apesar de invisível. Não deixar que essa breve aragem fuja, poderá garantir uma DD onde a transgressão (fundamental para o crescimento), a responsabilidade, a alegria de viver e aprender, a liberdade, o respeito pelo outro, a cidadania são os pilares que fizeram, fazem e farão a sua DIFERENÇA.

Uma Escola com uma cultura própria, que se afirma tanto no mais simples gesto como no projecto mais complexo.

E, quando um dia for abatida a camartelo pela voragem que a espreita, a sua marca não será apagada pois ela será tema recorrente entre todos os que foram tocados pela breve aragem que continuamente corre dentro e fora das suas paredes, apesar de ser invisível.

Mário Manaia partilha com a DD a sua arte

VIVA A REPÚPLICA!!!!

Junho 11, 2010

 

 

República e Património ou Património da República?*

 

Face a estas duas hipóteses levanta-se-me uma grande indecisão… O que tratar? Como colaborar na Ipsis Verbis?

Devo confessar que me chama a segunda hipótese. Recordo o meu avô republicano e anarquista que, cantava, para que todos ouvissem, e há muito sopravam os ventos da ditadura salazarista, as canções republicanas profundamente anticlericais. “Não entres nessa Igreja ó Cavador….”. Recordo a defesa dos valores da cidadania, da liberdade individual, da solidariedade, da educação. Valores que, de acordo com a ideologia republicana, deveriam ser inculcados desde a infância. Instrução e escola seriam os espaços da nova socialização onde esses ideais ganhariam raízes.

Só uma revolução que pusesse fim à Monarquia, poderia levar a cabo estes ideais. E a Revolução fez-se a 5 de Outubro de 1910.

Alteraram-se as instituições do estado e legislou-se abundantemente na construção de uma nova sociedade, fundada no humanismo, na protecção às crianças, na valorização da mulher, nas liberdades cívicas, no respeito pelo associativismo operário e pela segurança.

Muitas vezes ficou pelo campo das generosas intenções…

O Património (herança) deixado pela primeira República continua presente no quotidiano português (depois do longo interregno de quase cinquenta anos): a Lei da separação da Igreja do Estado (a consagração da laicidade), as leis da Família onde pontuou o divórcio, a validade do casamento civil, a protecção aos filhos legítimos e ilegítimos, a igualdade e liberdade entre marido e mulher, a protecção à infância, à velhice e às mães solteiras. O fim da censura, o reconhecimento do direito à greve. O ensino primário obrigatório e gratuito, o aparecimento de cantinas escolares, colónias de férias, escolas ao ar livre para crianças débeis.

Um Património, consagrado na Constituição de 1911, que diz “A República Portuguesa não admite privilégio de nascimento …” e ainda acrescenta “ A lei é igual para todos, mas só obriga aquela que for promulgada nos termos desta Constituição”.

Os republicanos não esqueceram a importância dos elementos simbólicos – a Bandeira, o Hino e a moeda (esta última, já nos nossos dias, levada na enxurrada do modernismo e da globalização).

Este foi o Património deixado pela Primeira República e com o qual todos nos acabamos por identificar.

Na mesma Constituição se regula o direito de voto excluindo os analfabetos. Talvez esta restrição esteja na base da importância concedida, pela primeira República, à instrução e à cultura.( in Revista Ipsis Verbis, nº5, Maio 2010, Escola Secundária Oliveira do Hospital)

Não poderia deixar de prestar homenagem aos meus alunos (12º C e 12ºD que colaboraram com os seus trabalhos nas comemorações do Centenário da República, deixando aqui algumas imagens que ilustram este evento .


 


* Mª da Glória Rodrigues, professora na Escola Secundária de D. Duarte, Coimbra

Memórias da DD

Junho 3, 2010

Duarte de Bem foi a revista publicada ao longo de anos na Escola Secundária de D. Duarte. E porque se não recordarmos esquecemos,  é bom refrescar a memória e deixar neste blog um pouco da memória da Escola. Não esqueçamos que o maior inimigo do Património é o esquecimento. Deixem aqui as vossas memórias. Estamos em tempos de debandada, mas que fiquem aqui registadas algumas realizações que foram e continuam a ser o suporte da cultura de escola que faz da DD um caso excepcional.

ENCONTRO E CONFRONTO….

DESCOBRIMENTOS E ENCOBRIMENTOS#

Nos finais do século XIV, uma Europa faminta, destroçada por guerras e pestes, contrasta com o norte de África rico, próspero, fervilhante de gente. Ouro, cereais, sedas, produtos exóticos alimentam miragens e sonhos transportados pelos espiões que ali arriscavam as vidas a troco de informações preciosas. As caravanas, que sulcavam os desertos transportando riquezas imensas, povoavam os sonhos europeus.

Desfeitos os sonhos em Ceuta, em breve serão as caravelas a sulcar os mares em busca dessa riqueza que  o imaginário paupérrimo da Europa exagerava e aumentava na justa proporção das suas necessidades e carências. 

Novos caminhos se abrem aos quais ficarão ligados o Infante D. Henrique, D. João II, Gil Eanes, Afonso Baldaia, Antão Gonçalves, Dinis Dias, Cadamosto, João de Santarém, Pedro Escobar, Fernão Gomes, Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Cristóvão Colombo, Vasco da Gama, Alvares Cabral, Fernão de Magalhães, Francisco de Almeida, Afonso de Albuquerque protagonistas, entre muitos outros, de uma ilusão que, como todas as ilusões, tomou por vezes forma de realidade.

Em época de comemorações, a investigação que se desenvolve em tais circunstâncias, tem criado a possibilidade de conhecer de modo crítico e rigoroso, a epopeia dos Descobrimentos, mas tem também sido fecunda em frases feitas e lugares comuns que subvalorizam o CONFRONTO de culturas e sobrevalorizam o ENCONTRO de culturas, que esquecem os ENCOBRIMENTOS e apenas lembram os DESCOBRIMENTOS.

Testemunhos da época relatam-nos, com a ingenuidade de quem não tem uma imagem para impor, toda a complexidade e diversidade de atitudes tomadas pelos portugueses face a novos povos, novos mundos, novas culturas (que afinal eram tão velhas!). E se os portugueses, protagonizaram o ENCONTRO DE CULTURAS, logo em seguida foram DOMINADORES, e se foram DESCOBRIDORES em breve viraram CONQUISTADORES.

“ E em acabando estas razões, olharam para a povoação e viram que os mouros, com suas mulheres e filhos saíam já quanto podiam dos seus alojamentos, porque ouveram vista dos contrários e eles chamando: “Santiago! Sam Jorge! Portugal! Deram sobre eles, matando e prendendo quanto podiam.

… e uns se afogavam sob as águas e outros pensavam de se esconder sob as cabanas, outros escondiam os filhos debaixo de limos, por cuidarem de escapar, onde depois os achavam.” (Gomes Eanes de Zurara, Crónica da Conquista da Guiné, p.102)

“De modo que este senhor Infante fez construir um castelo nesta ilha, para conservar e multiplicar este tráfico perpetuamente… de modo que se traz de Arguim para Portugal de 800 a mil escravos todos os anos”. (Luís Cadamosto, Viagens, p.104)

“ Quando o Capitão viu esta destruição e mau recado, mandou aprisionar dez naus de mouros, que estavam no porto e fez matar toda a gente que nela se achava, que seriam de quinhentos a seiscentos homens…As naus depois de descarregadas foram queimadas”. (Piloto anónimo, A Expedição de Pedro Alvares Cabral e Descobrimento do Brasil)

“Não dão os Tupinambás a seus filhos nenhum castigo, nem os doutrinam, nem repreendem por coisa que façam, aos machos ensinam-nos a atirar com arcos e flechas ao alvo e trazem-nos sempre às costas até à idade de sete oito anos e o mesmo às fêmeas. (Gabriel Soares de Sousa, Notícia do Brasil)

A diversidade de actuação dos portugueses perante os povos encontrados conferiu à cultura portuguesa um carácter multifacetado onde se acumulam resíduos dos mundos encontrados.

Europa, Brasil, Ásia e África são as diversidades que constituem a unidade da cultura portuguesa.

Algumas questões se nos põem em tempos de mudanças a breve prazo:

Como sobreviverá esta cultura plural numa Europa espartilhada em unidade política, económica, monetária, militar? Que futuro para o português no espaço “claustrofóbico” europeu? Resistirá, Portugal, ao apelo da cultura e do sangue que chegam do outro lado dos mares? Que fazer com Maastricht?


# M ª da Glória Rodrigues, 1994