Noticiar a guerra da Líbia

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Sofia Santos, doutoranda na Universidade de Coimbra, comenta a notícia da primeira morte confirmada de um jornalista na Líbia, lançando para debate a questão fundamental das interacções entre o poder político e o direito à informação.

Em 1918, o senador norte-americano Hiram Warren Johnson afirmava que a primeira baixa da guerra era, antes de qualquer outra coisa, a verdade. Datada de há quase um século, a frase continua assustadoramente actual. O texto do The Guardian de 14 de Março, que noticia a morte de um jornalista de uma equipa da Al-Jazeera, numa emboscada perto da cidade de Benghazi, dominada pelas forces rebeldes, quando regressavam de uma reportagem sobre protestos das forças de oposição ao regime, é disso uma clara evidência.
Ali Hassan al-Jaber foi o  primeiro jornalista morto confirmado, desde que a revolta na Líbia começou, há um mês atrás, sendo que o Committee to Protect Journalist já registou, desde então, 40 ocorrências contra a imprensa internacional e o seu trabalho.

Esta política (ainda que não recente) de repressão, na Líbia, para com os media internacionais evidencia o crescente poder, no contexto da actual interdependência global complexa, da opinião pública nas esferas nacional e internacional, mas plasma sobretudo a visão da liberdade de expressão e do direito à informação como uma ameaça política,sendo a figura do jornalista tida como um potencial alvo a abater.

A reivindicação destes direitos e a exigência do respeito do trabalho jornalístico como mediador de verdades, geografias e realidades distantes têm sido bandeiras certas de crítica a socieddaes repressivas. Porém, é importante manter uma visão não distorcida da realidade que se critica e da realidade a partir da qual se critica.

Há uma fronteira excessivamente ténue entre a crença e a luta pelos direitos e a apropriação vazia, em termos práticos, da sua retórica discursiva como justificação de políticas externas de intervenção em territórios geopoliticamente interessantes ou mesmo chave. Por outro lado, a identificação desta tensão entre media e poder político esventra de igual modo, ainda que com intensidades diferentes, o “quarto poder” das designadas “democracias ocidentais”.

A dualidade entre a verdade e a propaganda, os direitos e a violência, os democráticos e os repressivos é bem real, mas também porosa. É precisamente nesta porosidade que o nosso olhar se deve concentrar, defendendo os direitos e a sua universalidade, na retórica e na prática, numa comunhão de exigência verdadeiramente universal.
Sofia José Santos é doutoranda do Centro de Estudos Sociais / Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

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