MEMÓRIA DA ESCOLA …

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(…) Usávamos lousa e riscador, caderno de duas linhas para as cópias, canetas de pôr e tirar o aparo. Era preciso molhá-lo constantemente no tinteiro da carteira, os dedos andavam cheios de tinta, não havia sabão nem pedra – pomes que a tirasse, fazia parte da mão, estava na pele, ainda hoje lhe vejo a cor e lhe sinto o cheiro.

Aprendia-se a tabuada a cantar e os verbos à palmatoada. Quem ganhava batia e quem perdia estendia a mão. A classe ficava sempre à espera de ver quem é que no fim ia arriar em quem: se o Júlio em mim, se eu no Júlio, embora em gramática, sobretudo nos verbos, mas também no ditado, na leitura e nas redacções, eu fosse mais forte. Mas ele apesar do fato de cotim e dos pés descalços, era o melhor aluno, o que estudava mais, o mais atento, talvez o mais capaz.

Eu não gostava daquele jogo. De ganhar sim, mas não de dar palmatoadas nem de as levar. A palmatória, a que o professor chamava menina dos cinco olhos, era para mim um símbolo do mal, algo como a cruz suástica que via nos filmes e nas revistas.

Ninguém ensinava gramática como Lencastre. Não só as regras, mas a língua, a portuguesa língua, como ele dizia, usando como mais tarde vim a saber, a expressão de António Ferreira. Os verbos, o peso próprio de cada substantivo, o doseamento dos adjectivos, poucos mas bons, ensinava ele, as vírgulas, a virgulazinha que regula o trânsito, dizia Lencastre, fumando o giz ou escrevendo no quadro com a prisca. (…). Tinha com a língua portuguesa uma relação, por assim dizer, carnal. Ou religiosa. Ou ambas. Sentia que a missão da sua vida era defender a língua, ensinar a falá-la com as sílabas todas, obrigar a escrevê-la sem erros, o predicado a concordar com o sujeito.

(…) No Inverno a escola era feia e triste. As mãos enregeladas, muitas delas cheias de frieiras, mal podiam pegar nas canetas. (…). Eu olhava os pés descalços e cheios de feridas dos meus companheiros, as cabeças peladas, os rostos cobertos de impigens e sentia uma repugnância misturada com revolta.

Porque é que uns, poucos, tinham sapatos e outros, a maior parte, não?

(…) Porque ainda sinto o frio da escola. Ainda sinto o cheiro a pobreza, a pouco. Foi sobretudo isso que aprendi, além da gramática, da História pátria, dos rios e das serras, das linhas de caminho-de-ferro.

(…) E no entanto ficou um certo ritmo, uma certa música. O ritmo do ditado e do riscador a escrever na lousa as primeiras letras. A música das vogais ditas em voz alta, com o professor Lencastre, de palmatória em punho, a reger o coro. E também a música dos pintassilgos e das serezinhas que a partir de Março cantavam nas árvores ou até no cemitério. A música da nora que no Verão chamava por nós, lá em baixo, no rio. E sobretudo a fala, a fala dos meus companheiros e da gente da Alma, um pouco cantada, um ritmo mais de poema do que de prosa.

                        Manuel Alegre, Alma, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1997

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