MEMÓRIA DA ESCOLA …

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Parece, nos dias de hoje, que o mundo começou ontem. É importante registar algumas recordações que foram escritas, e bem, por algumas pessoas que fazem parte da nossa vivência e cujas memórias são também as nossas.

Quanto às imagens, elas refletem o tempo da infância na sua ingenuidade e na sua cândida  transgressão.

Doisneau registou como ninguém essa infância, essa memória da escola.

 

A camioneta vinha buscá-la cedo quando a névoa ainda envolve as coisas. Ela subia, enroupada como uma cebola, o bibe por cima de todas aquelas farpelas, a lancheira de verga a pesar-lhe na mão esquerda, a pasta às costas ajoujada como um burro.

O colégio das freiras era um edifício cor-de-rosa gelado que lhe lembrava a separação da mãe com mais violência. Nos corredores frios, ainda enevoados, os globos brancos de vidro suspensos do tecto, alastrava o seu cheiro de desgosto e náusea, aquele cheiro de comida requentada, guardada em lancheiras, marmitas, termos, que metia medo, que era o próprio cheiro do medo.

Medo ao casarão, à freira, às outras meninas. Custava-lhe sobretudo a hora do recreio, as outras lá iam a correr à compita para os baloiços e balancés no charco de sol e areia, ela, porém, ficava a um canto, à entrada do recreio, perto de uma pombas aprisionadas que arrulhavam, chocas e brancas, junto à “chauffage” branca.

Fingia que comia o almoço, mas à socapa ia deitando macheias de comida para debaixo da mesa e o que levava à boca enrolava-se-lhe entre a língua e o palato.

Na fotografia que resta desses tempos que passou no colégio, vemo-la embuchada, com uma gola alta de mais a cobrir-lhe bem o pescoço para evitar as anginas, o bibe apertado sobre tanta roupa. Encheu as bochechas de ar e até parece acamaradar com as outras, entrar em conjuras colegiais, mas não, nunca esteve tão só.

Longe da quentura da mãe, da sua voz, proibidas as conversas longas e solitárias com as bonecas, sem espaço para inventar as suas amigas de fantasia, constrangida a dormir uma sesta forçada sobre uma manta estendida no solho, nunca dormia, vulnerável à crueldade como nunca esteve depois.

Mais tarde, em dias de exame, havia de sentir aquele cheiro a comida requentada mesmo quando tal cheiro não existia. E a vista do casarão cor-de-rosa, ao passar casualmente por ele, far-lhe-ia sempre subir uma bola à garganta.

Nunca se está só como quando se é pequeno.

     Adília Lopes, O Decote da Dama de Espadas, Gota de Água, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1988

 

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