Archive for the ‘Cidadania’ Category

Compreender a herança do colonialismo europeu

Março 25, 2011

"Compeeender a herança do colonialismo europeu"

 LIBIA

Libia

Pela posição estratégica no Mediterrâneo, a costa da Líbia foi ocupada por diversos povos na antiguidade: berberes, egípcios, fenícios, cartagineses, gregos e romanos. No século IV foi incorporada ao Império Bizantino. No século VII os árabes dominam a região e imprimem a religião muçulmana. Entre 1517 e 1911, o domínio é do Império Turco-Otomano quando é invadido pela Itália quando coloniza a Líbia a partir de 1934. Durante a Segunda Guerra, o território líbio é dividido entre Reino Unido e França e em 1951 alcança sua independência instaurando uma monarquia. Em 1969, o coronel Muamar Kadafi toma o poder através de um golpe militar que nacionaliza a produção de petróleo e instala uma ditadura militar. O governo passa a ser acusado de apoiar grupos terroristas que apóiam a causa palestina e grupos separatistas da Europa. Na década de 1980 os EUA impõem sanções econômicas e em 1986 bombardeiam Trípoli e Benghazi, visando destruir campos de treinamento terrorista. Em 1992 o governo recusa a extradição de dois agentes líbios responsabilizados pela explosão de um jato da Pan Am e a ONU impõe pesadas sanções em 1992. Kadafi dá início a um programa de privatizações para abrir a economia ao capital estrangeiro. Em 1993 rompe com o fundamentalismo islâmico do Irã que apoia grupos extremistas líbios. Em 1999 a ONU cancela o embargo e a Líbia abre negociações com empresas europeias para extração de petróleo e gás natural. A partir de 2003 a Líbia atende às exigências do Conselho de Segurança da ONU e reaproxima o país cada vez mais do ocidente e em 2005 concede licenças para empresas norteamericanas explorem petróleo e gás no país. Em 2010 a empresa British Petroleum (BP) anuncia o início da extração de petróleo no país. Em 13 de fevereiro de 2011 começa uma série de protestos populares contra o governo de Kadafi reivindicando melhoras sociais e políticas. Os manifestantes influenciados pelas revoltas na Tunísia e no Egito também clamam por liberdade e democracia, mais respeito pelos direitos humanos, uma melhor distribuição da riqueza e a redução da corrupção no seio do Estado e das suas instituições. A violenta repressão aos opositores do governo fez com que vários embaixadores e lideranças líbias renunciassem a seus cargos. A ONU estuda a possibilidade de acusar a Líbia de crimes contra a humanidade por ter recorrido a caças de guerra para repreender as manifestações. Devido às manifestações, além do Brasil, países como França, Rússia, Holanda e Índia também já conseguiram evacuar parte de seus cidadãos da Líbia. Muammar Gaddafi, ditador líbio há 42 anos no poder, ameaçou “enfiar o dedo nos olhos” daqueles que intervierem na situação política do país e falou que se os Estados Unidos ou os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) entrarem na Líbia, “haverá milhares de mortos” (do UOL online).

marcosbau.files.wordpress.com/2011/03/colonia

Anúncios

Noticiar a guerra da Líbia

Março 25, 2011

Sofia Santos, doutoranda na Universidade de Coimbra, comenta a notícia da primeira morte confirmada de um jornalista na Líbia, lançando para debate a questão fundamental das interacções entre o poder político e o direito à informação.

Em 1918, o senador norte-americano Hiram Warren Johnson afirmava que a primeira baixa da guerra era, antes de qualquer outra coisa, a verdade. Datada de há quase um século, a frase continua assustadoramente actual. O texto do The Guardian de 14 de Março, que noticia a morte de um jornalista de uma equipa da Al-Jazeera, numa emboscada perto da cidade de Benghazi, dominada pelas forces rebeldes, quando regressavam de uma reportagem sobre protestos das forças de oposição ao regime, é disso uma clara evidência.
Ali Hassan al-Jaber foi o  primeiro jornalista morto confirmado, desde que a revolta na Líbia começou, há um mês atrás, sendo que o Committee to Protect Journalist já registou, desde então, 40 ocorrências contra a imprensa internacional e o seu trabalho.

Esta política (ainda que não recente) de repressão, na Líbia, para com os media internacionais evidencia o crescente poder, no contexto da actual interdependência global complexa, da opinião pública nas esferas nacional e internacional, mas plasma sobretudo a visão da liberdade de expressão e do direito à informação como uma ameaça política,sendo a figura do jornalista tida como um potencial alvo a abater.

A reivindicação destes direitos e a exigência do respeito do trabalho jornalístico como mediador de verdades, geografias e realidades distantes têm sido bandeiras certas de crítica a socieddaes repressivas. Porém, é importante manter uma visão não distorcida da realidade que se critica e da realidade a partir da qual se critica.

Há uma fronteira excessivamente ténue entre a crença e a luta pelos direitos e a apropriação vazia, em termos práticos, da sua retórica discursiva como justificação de políticas externas de intervenção em territórios geopoliticamente interessantes ou mesmo chave. Por outro lado, a identificação desta tensão entre media e poder político esventra de igual modo, ainda que com intensidades diferentes, o “quarto poder” das designadas “democracias ocidentais”.

A dualidade entre a verdade e a propaganda, os direitos e a violência, os democráticos e os repressivos é bem real, mas também porosa. É precisamente nesta porosidade que o nosso olhar se deve concentrar, defendendo os direitos e a sua universalidade, na retórica e na prática, numa comunhão de exigência verdadeiramente universal.
Sofia José Santos é doutoranda do Centro de Estudos Sociais / Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

1ª República e fotojornalismo J. Benoliel

Setembro 10, 2010

Joshua Benoliel 

Fotógrafo

Nasceu em Lisboa, a 13 de Janeiro de 1873; e morreu no mesmo local em 3 de Fevereiro de 1932.

Jornalista e fotógrafo português (possuía cidadania britânica, da qual nunca abdicou), descendente de uma família hebraica estabelecida em Cabo Verde. Foi praticamente o criador em Portugal da reportagem fotográfica. Fez a cobertura jornalística dos grandes acontecimentos da sua época, acompanhando os reis D. Carlos e D. Manuel nas suas viagens ao estrangeiro, assim como a Revolução de 1910, as revoltas monárquicas durante a República, assim como exército português que combateu na Flandres durante a Primeira Guerra Mundial. As suas fotografias caracterizam-se pelo intimismo e humanismo com que abordava os temas.

Trabalhou sobretudo para o jornal diário de Lisboa Século e para a revista ilustrada publicada pelo mesmo jornal Ilustração Portuguesa, de 1906 a 1918 e de 1924 até à sua morte, mas também para o Ocidente e o Panorama. A Ilustração a partir de 1906, com o aparecimento da 2.ª série, e sob a direcção de Silva Graça, deu um grande impulso ao fotojornalismo.

Publicou, com prefácio de Rocha Martins, o Arquivo Gráfico da Vida Portuguesa, obra em fascículos ilustrada com fotografias de 1903 a 1918

www.arqnet.pt/portal/biografias/benoliel.html

CARTA PARA JOSEFA, MINHA AVÓ

Junho 26, 2010

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha.

Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.

Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, umas coisas que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.

Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.

É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.

 José Saramago

Este foi um dos textos de Saramago que me tocaram especialmente, por isso partilho-o com todos os que aqui vierem.

VIVA A REPÚPLICA!!!!

Junho 11, 2010

 

 

República e Património ou Património da República?*

 

Face a estas duas hipóteses levanta-se-me uma grande indecisão… O que tratar? Como colaborar na Ipsis Verbis?

Devo confessar que me chama a segunda hipótese. Recordo o meu avô republicano e anarquista que, cantava, para que todos ouvissem, e há muito sopravam os ventos da ditadura salazarista, as canções republicanas profundamente anticlericais. “Não entres nessa Igreja ó Cavador….”. Recordo a defesa dos valores da cidadania, da liberdade individual, da solidariedade, da educação. Valores que, de acordo com a ideologia republicana, deveriam ser inculcados desde a infância. Instrução e escola seriam os espaços da nova socialização onde esses ideais ganhariam raízes.

Só uma revolução que pusesse fim à Monarquia, poderia levar a cabo estes ideais. E a Revolução fez-se a 5 de Outubro de 1910.

Alteraram-se as instituições do estado e legislou-se abundantemente na construção de uma nova sociedade, fundada no humanismo, na protecção às crianças, na valorização da mulher, nas liberdades cívicas, no respeito pelo associativismo operário e pela segurança.

Muitas vezes ficou pelo campo das generosas intenções…

O Património (herança) deixado pela primeira República continua presente no quotidiano português (depois do longo interregno de quase cinquenta anos): a Lei da separação da Igreja do Estado (a consagração da laicidade), as leis da Família onde pontuou o divórcio, a validade do casamento civil, a protecção aos filhos legítimos e ilegítimos, a igualdade e liberdade entre marido e mulher, a protecção à infância, à velhice e às mães solteiras. O fim da censura, o reconhecimento do direito à greve. O ensino primário obrigatório e gratuito, o aparecimento de cantinas escolares, colónias de férias, escolas ao ar livre para crianças débeis.

Um Património, consagrado na Constituição de 1911, que diz “A República Portuguesa não admite privilégio de nascimento …” e ainda acrescenta “ A lei é igual para todos, mas só obriga aquela que for promulgada nos termos desta Constituição”.

Os republicanos não esqueceram a importância dos elementos simbólicos – a Bandeira, o Hino e a moeda (esta última, já nos nossos dias, levada na enxurrada do modernismo e da globalização).

Este foi o Património deixado pela Primeira República e com o qual todos nos acabamos por identificar.

Na mesma Constituição se regula o direito de voto excluindo os analfabetos. Talvez esta restrição esteja na base da importância concedida, pela primeira República, à instrução e à cultura.( in Revista Ipsis Verbis, nº5, Maio 2010, Escola Secundária Oliveira do Hospital)

Não poderia deixar de prestar homenagem aos meus alunos (12º C e 12ºD que colaboraram com os seus trabalhos nas comemorações do Centenário da República, deixando aqui algumas imagens que ilustram este evento .


 


* Mª da Glória Rodrigues, professora na Escola Secundária de D. Duarte, Coimbra

A arte xávega

Abril 8, 2010

A arte xávega terá sido trazida para Portugal por volta de 1776. Denominada também por “grande arte” é uma forma de pesca artesanal actualmente caída em desuso. (Ainda se pratica, para turista ver nos meses de Verão, nas praias onde se realizou até ao fim do século passado).

A arte xávega é um processo de pesca de arrasto em que uma companha (grupo de pescadores) entra pelo mar num barco de remos, para lançar a rede a grande distância, cercando os cardumes, puxando-a, terminando a faina à força de braços e com a ajuda de bois. Estes bois possantes eram destinados apenas à faina marítima.

Espectáculo emocionante. Os riscos corridos pelos pescadores eram acompanhados pelas mulheres, crianças e velhos “lobos-do-mar” que, das areias da praia, fixavam o horizonte durante horas. Chegado o barco, são e salvo, era a sua vez de, juntamente com os bois, puxarem a rede, sempre com esperança de ver o seu saco carregado de peixe.

Havia momentos de silêncio, só se ouvia o bater das ondas. Ocorriam na entrada do pequeno barco nas ondas alterosas e na chegada da rede. Primeiro era o silêncio do medo, o do fim era o silêncio da expectativa de uma boa pescaria que afastaria por uns dias a fome endémica.Trabalho hercúleo, brutal, por vezes, muitas vezes mortal. A força de quem o viu ficará para sempre na memória. Ninguém como Raul Brandão traduziu toda a grandeza da arte da xávega e dos seus actores. E passo a citar de memória.

“Que povo é este que lavra as ondas do mar? “

 

http://olhares.sapo.pt/ahcravo

(Para mais informação ver este endereço)

Eu e Blog DD

Abril 6, 2010

Eu e Blog DD

Gosto desta forma de comunicação. Entendo que a profissão dos professores se enquadra na área dos comunicadores. Deste modo procurei sempre passar a minha mensagem recorrendo aos meios que considerei, e considero, mas adequados. Passei por muitos “modismos pedagógicos, didácticos, metodológicos”, segui muito poucos. Apanhei uma coisa aqui, outra ali e fui seguindo. Entendo que na minha profissão não há muitas regras, tem que haver, isso sim, muita criatividade, muito bom senso, muito conhecimento daqueles a quem queremos passar a (s) mensagem (ns).

Preparo-me pensando na eficácia dos meus procedimentos e na sua eficiência. Nem sempre tenho sucesso, mas também não pretendo ter sempre sucesso com todos os meus alunos. Consigo chegar a uma grande parte, hoje com mais trabalho e dificuldade, mas não desisto. Sou persistente, não os largo, obrigo, sou por vezes uma “seca”. Mas esta é a atitude do vendedor que só assim tem sucesso. Ganha pela insistência.

Este Blog, aberto à leitura de quem aqui chegar, é para mim um espaço diversificado, um espaço de cultura, de múltiplos saberes, de reflexões, de conhecimento. Será bom que os nossos alunos o vejam e que vejam que os seus professores são multifacetados, têm mais vida e interesses para lá da sala de aula.