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Já não há semideuses

Abril 4, 2010

Houve uma época em que a literatura era feita por “semideuses”. Um deles chamou-se Alexandre Herculano e nasceu em Lisboa há 200 anos, a 28 de Março de 1810. Nenhum outro intelectual teve em vida, o poder de Herculano. Mais do que escrever livros – fez uma literatura; mais do que comentar acontecimentos – inspirou-os; mais do que tentar compreender o mundo em que vivia – transformou-o. (…)

Na década de 1850, Herculano conseguiu ser favorito dos reis, que o recebiam no Paço, e do povo, que enchia as salas onde falava em público. Os seus contemporâneos viam-no então como ele sempre quis ser visto: um profeta laico, cujas opiniões ocupavam as primeiras páginas dos jornais e decidiam as grandes questões públicas. (…) Herculano era a maior glória nacional, homenageado por todas as academias da Europa e da América. Camões e Pessoa só puderam sonhar com um triunfo póstumo. Herculano teve-o em vida.

(…) Na mitologia nacional, porém, Herculano funcionava como modelo de cidadão. (…). 1910, não fosse a inesperada República, teria sido simplesmente o ano do primeiro centenário, intensamente celebrado. Ainda em 1977, o aniversário da sua morte serviu, por entre congressos, conferências e reedições, para pôr a nova democracia sob a sua protecção espiritual. 2010 ficará para a História como o ano em que Herculano não foi comemorado. Que aconteceu? Mudaram os gostos, falharam os professores, o Estado preferiu Afonso Costa …Talvez não tenha sido só Herculano que desapareceu, mas o seu lugar. Já não há semideuses.

Rui Ramos, in Expresso, Actual, 27 de Março de 2010