Archive for the ‘Literatura’ Category

MEMÓRIA DA ESCOLA …

Maio 22, 2012

A LÍNGUA DAS BORBOLETAS

“Então, Pardal? Espero que este ano possamos ver enfim a língua das borboletas”.

O mestre esperava havia algum tempo que mandassem um microscópio aos professores primários. Tanto nos falava de como se aumentavam as coisas miúdas e invisíveis graças àquele aparelho, que nós, garotos chegávamos a vê-las de verdade, como se as suas palavras entusiastas tivessem o efeito de poderosas lentes.

“A língua da borboleta é uma trompa enroscada como a mola de um relógio. Quando uma flor a atrai, desenrola-a e mete-a no cálice para chupar. Quando vocês levam o dedo humedecido a um torrão de açúcar não sentem já o doce na boca, como se a polpa do dedo fosse a ponta da língua? Pois a língua da borboleta é assim.”

E então tínhamos todos inveja das borboletas. Que maravilha. Ir pelo mundo a voar, com aquelas roupas de festa, e parar em flores que são como tabernas com pipas cheias de xarope.

Eu gostava muito daquele professor. Ao princípio os meus pais nem podiam acreditar. Quero eu dizer que não eram capazes de entender quanto eu gostava do meu mestre. Quando era miúdo a escola era uma ameaça terrível. Uma palavra que zunia no ar como uma vara de vime.

“Hás-de ver quando fores para a escola!”

Dois dos meus tios (…) emigraram para a América para não irem às sortes e para a guerra de Marrocos. Pois bem, também eu sonhava ir para a América só para não ir para a escola. De facto, havia histórias de garotos que fugiam para o monte para evitar tal suplício. A pareciam dois ou três dias depois, gelados e sem fala, como desertores do Barranco do Lobo.

Eu ia para os seis anos e todos me chamavam pardal. Havia outros garotos da minha idade que já trabalhavam. Mas o meu pai era alfaiate e não tinha terras nem gado. Antes queria ver-me longe que a atrapalhar na pequena oficina de costura. Assim, passava grande parte do dia em correrias pela Alameda, e foi o Cordeiro, o apanhador de lixo e folhas secas que me pôs a alcunha. “Pareces um pardal!”

(…) “Hás-de ver quando fores para a escola!”

O meu pai relatava como uma tortura, como se lhe arrancassem as amígdalas à mão, a maneira como o mestre lhes arrancava o som gutural da fala para que não dissessem aghua nem ghato nem ghraça. “ Todas as manhãs tínhamos de dizer a frase As pegas de Guadalajara têm a garganta cheia de trigo. Muitas ponteiradas levámos por culpa de Ghuadalajara!”

Se realmente me queria meter medo, conseguiu. Não dormi na noite da véspera. Encolhido na cama, ouvia o relógio de parede na sala com a angústia de um condenado. O dia chegou (…). Não mentiria se dissesse aos meus pais que estava doente.

O medo, como um rato, roía-me as entranhas.

E mijei –. me. Não mijei na cama, mas na escola.

Lembro-me muito bem. Passaram-se tantos anos e ainda sinto uma humidade morna e vergonhosa a escorrer-me pelas pernas. Estava sentado na última carteira, meio agachado com a esperança de que ninguém desse pela minha existência, até poder sair e largar a voar pela Alameda.

“Vamos lá a ver, você, ponha-se de pé!”

O destino avisa sempre. Ergui os olhos e vi com espanto que a ordem era para mim. Aquele mestre feio como um bicho apontava-me com a régua. Era pequena, de madeira, mas a mim pareceu-me a lança de Abd el-krim.

“Como se chama?”

“Pardal.”

Todos os garotos riram às gargalhadas. Senti como se me batessem com latas nas orelhas.

“Pardal?”

Não me lembrava de nada. Nem do meu nome. Tudo o que fora até então desaparecera-me da cabeça. Os meus pais eram duas figuras confusas que se me esvaíam na memória. Olhei o janelão, procurando com angústia as árvores da Alameda.

E foi então que me mijei. (…)

Os calções do Romualdo ficavam-lhe ridículos. Tinha as pernas muito compridas e morenas, com os joelhos cheios de feridas.

Uma tarde parda e fria…

“Um momento, Romualdo, que é que vais ler?”

“Uma poesia, senhor.”

“E como se chama?”

“Recordação Infantil. O autor é o senhor António Machado.”

“Muito bem Romualdo, adiante. Devagarinho e em voz alta. Repara na pontuação.”

O dito Romualdo, que eu conhecia de acarretar sacos de pinhas como garoto de Altamira que era, pigarreou como um velho fumador de picado e leu com uma voz incrível, esplêndida que parecia saída da rádio do Manolo Suárez (…)

Uma tarde parda e fria

De Inverno. Os escolares

Estudam. Monotonia

De chuva atrás dos vidros regulares.

É a aula. Num cartaz de papel

Está a figura de Caim

Fugitivo, e morto Abel,

Junto de uma mancha carmim…

“Muito bem. Que significa monotonia de chuva, Romualdo?

“Que chove depois de chover, senhor Gregório.”

            Manuel Rivas, Que me Queres, Amor? Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1998

Anúncios

MEMÓRIA DA ESCOLA …

Maio 22, 2012

Image

(…) Usávamos lousa e riscador, caderno de duas linhas para as cópias, canetas de pôr e tirar o aparo. Era preciso molhá-lo constantemente no tinteiro da carteira, os dedos andavam cheios de tinta, não havia sabão nem pedra – pomes que a tirasse, fazia parte da mão, estava na pele, ainda hoje lhe vejo a cor e lhe sinto o cheiro.

Aprendia-se a tabuada a cantar e os verbos à palmatoada. Quem ganhava batia e quem perdia estendia a mão. A classe ficava sempre à espera de ver quem é que no fim ia arriar em quem: se o Júlio em mim, se eu no Júlio, embora em gramática, sobretudo nos verbos, mas também no ditado, na leitura e nas redacções, eu fosse mais forte. Mas ele apesar do fato de cotim e dos pés descalços, era o melhor aluno, o que estudava mais, o mais atento, talvez o mais capaz.

Eu não gostava daquele jogo. De ganhar sim, mas não de dar palmatoadas nem de as levar. A palmatória, a que o professor chamava menina dos cinco olhos, era para mim um símbolo do mal, algo como a cruz suástica que via nos filmes e nas revistas.

Ninguém ensinava gramática como Lencastre. Não só as regras, mas a língua, a portuguesa língua, como ele dizia, usando como mais tarde vim a saber, a expressão de António Ferreira. Os verbos, o peso próprio de cada substantivo, o doseamento dos adjectivos, poucos mas bons, ensinava ele, as vírgulas, a virgulazinha que regula o trânsito, dizia Lencastre, fumando o giz ou escrevendo no quadro com a prisca. (…). Tinha com a língua portuguesa uma relação, por assim dizer, carnal. Ou religiosa. Ou ambas. Sentia que a missão da sua vida era defender a língua, ensinar a falá-la com as sílabas todas, obrigar a escrevê-la sem erros, o predicado a concordar com o sujeito.

(…) No Inverno a escola era feia e triste. As mãos enregeladas, muitas delas cheias de frieiras, mal podiam pegar nas canetas. (…). Eu olhava os pés descalços e cheios de feridas dos meus companheiros, as cabeças peladas, os rostos cobertos de impigens e sentia uma repugnância misturada com revolta.

Porque é que uns, poucos, tinham sapatos e outros, a maior parte, não?

(…) Porque ainda sinto o frio da escola. Ainda sinto o cheiro a pobreza, a pouco. Foi sobretudo isso que aprendi, além da gramática, da História pátria, dos rios e das serras, das linhas de caminho-de-ferro.

(…) E no entanto ficou um certo ritmo, uma certa música. O ritmo do ditado e do riscador a escrever na lousa as primeiras letras. A música das vogais ditas em voz alta, com o professor Lencastre, de palmatória em punho, a reger o coro. E também a música dos pintassilgos e das serezinhas que a partir de Março cantavam nas árvores ou até no cemitério. A música da nora que no Verão chamava por nós, lá em baixo, no rio. E sobretudo a fala, a fala dos meus companheiros e da gente da Alma, um pouco cantada, um ritmo mais de poema do que de prosa.

                        Manuel Alegre, Alma, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1997

CARTA PARA JOSEFA, MINHA AVÓ

Junho 26, 2010

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha.

Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.

Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, umas coisas que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.

Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.

É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.

 José Saramago

Este foi um dos textos de Saramago que me tocaram especialmente, por isso partilho-o com todos os que aqui vierem.

Já não há semideuses

Abril 4, 2010

Houve uma época em que a literatura era feita por “semideuses”. Um deles chamou-se Alexandre Herculano e nasceu em Lisboa há 200 anos, a 28 de Março de 1810. Nenhum outro intelectual teve em vida, o poder de Herculano. Mais do que escrever livros – fez uma literatura; mais do que comentar acontecimentos – inspirou-os; mais do que tentar compreender o mundo em que vivia – transformou-o. (…)

Na década de 1850, Herculano conseguiu ser favorito dos reis, que o recebiam no Paço, e do povo, que enchia as salas onde falava em público. Os seus contemporâneos viam-no então como ele sempre quis ser visto: um profeta laico, cujas opiniões ocupavam as primeiras páginas dos jornais e decidiam as grandes questões públicas. (…) Herculano era a maior glória nacional, homenageado por todas as academias da Europa e da América. Camões e Pessoa só puderam sonhar com um triunfo póstumo. Herculano teve-o em vida.

(…) Na mitologia nacional, porém, Herculano funcionava como modelo de cidadão. (…). 1910, não fosse a inesperada República, teria sido simplesmente o ano do primeiro centenário, intensamente celebrado. Ainda em 1977, o aniversário da sua morte serviu, por entre congressos, conferências e reedições, para pôr a nova democracia sob a sua protecção espiritual. 2010 ficará para a História como o ano em que Herculano não foi comemorado. Que aconteceu? Mudaram os gostos, falharam os professores, o Estado preferiu Afonso Costa …Talvez não tenha sido só Herculano que desapareceu, mas o seu lugar. Já não há semideuses.

Rui Ramos, in Expresso, Actual, 27 de Março de 2010

Poesia à solta pela Escola

Março 15, 2010

Porque a Escola é lugar de criatividade e de imaginação, deixamos aqui um exemplo…

O Fantasma ou a solidão

Existe uma alma eterna que procura
Tudo quanto o destino lhe prometa!
A tristeza existe, mas não liberta,
A lágrima corre precisa, mas enferma,
Derramando esparsos medos sob a lua;
Este solitário vagueando lastimoso,
Triste, amedrontado, desconhecendo lar,
A maldição no seu ventre transporta a sufocar,
Que nem chama num candelabro a iluminar
O destino firme, mas maldoso;
“Mas que destino eterno eternamente?” impõe-se a questão,
A noite corre fria, deplorável, escura,
E o vulto permanece solitário nesta amargura,
Sem caminho que descubra
Um pleno raio a salvação;
“Eu perdido passo solitário eternamente eterno!”
E sob a plácida maré eterna plenamente chorou,
Como abraço nunca sentido por onde errou,
Sem conhecer os desígnios de quem louvou,
Das eras felizes do imenso credo;
“Morto estou eterno eternamente, ou não serei fantasma?”
Fantasma eterno do eterno medo,
A quem descanso algum pareceu pleno,
E os mortais seus semelhantes fazem por esquecê-lo,
Nesta eterna eternamente perdição cantada;
Louva o rol de perdições sentidas longemente:
Nunca ao teu amor sentimento confessaste,
Nunca ao teu próximo ajudaste,
E julgas que o paraíso surge puro neste contraste
De ímpio mal maldoso eterno eternamente?
“Pois o castigo mereço, o castigo somente,
O castigo de Caim mais detestado,
Irmão peste, desprezado,
Da humanidade menos cantado,
Do qual o mal se ergue e sente!”;
A chama luminosa, quente, ergueu-se neste pleno satisfazer,
E nela o fantasma, gritando, desapareceu eterno eternamente:
“Aos filhos do homem me despeço neste breu latente,
Neste frio coagido na penumbra longe do céu pendente,
Porque no Inferno eterno eternamente irei para sempre adormecer!”

Daniel Sousa, 12ºC