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Os 10 dogmas da educação: o politicamente incorrecto?

Março 30, 2010

Um pouco de provocação também pode estimular a discussão (rima e é verdade).

Dogma 1: “O ensino centrado no aluno” irracional! Este dogma tem sido a nossa caixa de Pandora. Por que não centrar o ensino no conhecimento, a verdadeira razão de ser da escola. (…)?

  

Dogma 2: “O professor concebido enquanto animador de auto-aprendizagens dos alunos errado! O professor só o é se for um bom transmissor de conhecimentos. Isso é do mais elementar bom senso.

  

Dogma 3: “As aulas expositivas são erradas”falso! Não é assim que, com o tempo, os professores vão ganhando o dom da palavra por si só sedutor, desenvolvem um saber racional e logicamente estruturado e a sala de aula passará a ser, um espaço de silêncio, da imprescindível tranquilidade do saber? Desde que se inventou a escola, quantos milhões e milhões de seres humanos não aprenderam e não aprendem por esse método?

  

Dogma 4: “As interacções humanas são sempre positivas, logo a escola não necessita de regular comportamentos, sendo a autoridade dispensável ou secundária”falta de senso! Tanto aprendemos, no convívio com os outros, atitudes positivas (respeito, amizade, trabalho, rigor, disciplina, etc.) como negativas (má educação, insolência, preguiça, agressividade, delinquência, etc.), logo a escola deve regular comportamentos referenciados à moral social e que assumam carácter impositivo, em contracorrente com a actual permissividade.

  

Dogma 5: “É preciso diversificar a avaliação, se possível evitando a classificação quantificada e recusando os exames no básico” irresponsável! Essa não é a fórmula perfeita para, por um lado, desvalorizar a escrita, a leitura e o cálculo, por outro lado, escamotear a verdade sobre o trabalho efectivo levado a cabo por professores e alunos e, por outro lado ainda, não impede que se corrijam desvios desde o 1º ciclo do básico?

  

Dogma 6: “No ensino básico a avaliação tem de ter por referência os níveis de 1 a 5” mentiroso! Esse sistema de avaliação/ classificação, germinado na conjuntura revolucionária dos anos setenta, tem permitido todo o tipo de manipulações dentro e fora da escola e falseia grosseiramente os resultados escolares dos alunos. Só quem nunca esteve em reuniões de avaliação é que não se apercebe dos “milagres “‘ em catadupa que aí se produzem transformando 2 (da reprovação) em 3 (do sucesso), sem que nada de sólido o justifique, a não ser o sempre disponível “discurso do coitadinho”.

Haveria nas avaliações tanta injustiça, tanto facilitismo, tanta promoção do demérito, se as notas fossem de 0 a 20 valores?

 

Dogma 7: “Os encarregados de Educação são elementos decisivos no processo educativo dentro da escola” demagogia barata!

Quanto mais dentro da escola estiverem os encarregados de educação mais se enfraquece o corpo docente. Já somos suficientemente crescidos para saber que os bons pais se fazem em casa, educando os filhos e trabalhando com eles os assuntos escolares. A confusão entre a escola e essa coisa vaga que é “a sociedade” tem conduzido à perda da dignidade da escola. Ela tem, como sempre teve, na sua artificial (mas necessária) autonomia – construída em torno da leitura, da escrita, do cálculo e dos “agentes de dentro”-a condição sine qua non do seu sucesso.

 

Dogma 8: “As sensibilidades e opiniões dos professores são veiculadas pelos sindicatos, cientistas da educação e Ministério da Educação” tapete que esconde o lixo! Algum professor se sente representado por um sistema cujos representantes são o seu cancro? De onde viriam as depressões, as frustrações, os sentimentos de opressão se os que há décadas falam em nome de terceiros estivessem certos e ligados à realidade? Alguma das reformas a que temos assistido conseguiu penetrar na consciência dos professores e na intimidade da sala de aula onde tudo se decide e onde tudo pode ser pervertido?

  

Dogma 9: “As escolas são instituições democráticas, às vezes até com “democracia a mais”no mínimo, perverso! Na maior parte dos casos, sobretudo quando as situações são mais melindrosas exigindo que se enfrentem, sem rodeios, alunos e pais, quantos professores se sentem verdadeiramente protegidos e dignificados por aqueles que elegeram? Não seria vantajoso impor um limite de mandatos aos órgãos de gestão das escolas, de modo a garantir uma mais efectiva participação e representatividade dos professores, impedindo ao mesmo tempo que aqueles que têm mais peso na definição das políticas de cada escola e, por inerência do sistema de ensino, se afastassem e cortassem, muitas vezes em definitivo, com a sala de aula? Não era a forma de travar certos caciquismos dentro das escolas, alguns deles cristalizados há mais de uma década? Em vez de os enfrentar e resolver, eles vão aprendendo a conviver placidamente com os problemas.

 

Dogma 10: “As dificuldades do ensino e mesmo o mau ensino são espelho da sociedade que temos e, portanto, uma fatalidade”a desculpa da incapacidade e da incompetência!

Essa não é a fórmula-chave que usam os que se querem perpetuar nos seus cargos universos mentais, mesmo que estejamos a um passo do abismo?

Nota final / Advertência: Não há reforma nenhuma sustentável, se os professores não exigirem de si próprios algo. Seria demagógico pensar que tudo mudaria para melhor apenas mudando o que existe, isto é, abandonando a “pedagogice”. É preciso dar outro e decisivo passo: que os professores invistam no conhecimento científico ou académico da área em que se formaram. Esse tem de ser um compromisso não só do professor, mas da pessoa pela vida fora. O que se exige é que ele seja racionalmente direccionado para a Literatura e Língua Portuguesas, para as Línguas Estrangeiras; para a História, Filosofia, Geografia, Matemática; Física; Química, Biologia, Informática, Artes, Educação Física, Educação Musical e outros domínios do saber.

O bom professor é o que domina o conhecimento e, no estado actual, além disso é recomendável que deite para o lixo a pedagogia hoje dominante.

Gabriel Mithá Ribeiro, A Pedagogia da Avestruz, Gradiva Publicações,  Edição/reimpressão 2004.